Olá pessoal! Nesta semana vamos começar com os questionamentos do leitor
Alex de Figueiredo Siqueira. Ele nos conta que está no penúltimo
período de um curso superior, possui um emprego e mora no interior de
Minas Gerais. Ele nos diz que possui um projeto para se tornar
empreendedor e que acredita que seu projeto teria mais sucesso em uma
cidade de maior porte. Por último ele nos conta que está em dúvida sobre
se tranca a matrícula em seu curso e se aventura com sua reserva
financeira "de curto prazo" ou se espera mais um pouco.
Alex, todo empreendedor, por definição, é um otimista. Explicando melhor, o empreendedor é a pessoa que abre mão de alternativas mais seguras, como uma carreira em uma grande empresa, para arriscar seu dinheiro, tempo e muitas vezes dinheiro e tempo dos outros em uma iniciativa própria.
Todos nós sabemos, objetivamente, que um negócio sempre pode dar
errado. Repito: por melhor que seja sua ideia, por mais recursos que
você tenha à disposição e mais bem preparado que você esteja, ainda
assim sua empresa pode ir por água abaixo por fatores fora de seu
controle. A história está cheia de pessoas bem preparadas e com boas
ideias que ficaram pelo caminho (só que raramente vemos biografias e
histórias contadas sobre aqueles que fracassaram).
A questão do Alex gira em torno do "momento certo" de sair da
empresa, se mudar e iniciar um negócio novo. Como toda grande mudança, o
problema pode ser desmontado em vários passos menores para nos ajudar a
pensar e tomar decisões.
O primeiro ponto é a necessidade de um curso superior para se tornar
empreendedor. Via de regra, ter um curso superior pode ajudar, mas o
conhecimento necessário para tocar o dia a dia de uma empresa pode ser
conseguido em outros lugares. Tecnicamente falando, a não ser que você
vá atuar como empreendedor em uma área que valorize a formação, como a
área de consultoria por exemplo, ou uma área que títulos são necessários
para começar a atuar, como Engenharia, Arquitetura, Atividades ligadas à
saúde e assim por diante, um curso superior não é necessário. Por outro
lado, um curso superior pode valer muito caso sua iniciativa
empreendedora dê errado e você precise encontrar um emprego.
Quanto ao dinheiro, é comum ouvirmos dúvidas sobre quanto é preciso
ter de "reserva" antes de iniciar um negócio, ou até se vale a pena ou
não se endividar. O leitor Inácio Júnior, por exemplo, enviou
recentemente um e-mail perguntando se vale a pena ou não começar uma
empresa se endividando. Inácio, essa também vale para você: falar sobre
dívidas de pessoas físicas e empresas são coisas completamente
diferentes. Via de regra, sou contra pessoas físicas assumirem dívidas a
não ser que seja como formação de patrimônio (como quando você financia
um imóvel para morar nele e parar de pagar aluguel, por exemplo), e sou
contra dívidas adquiridas apenas para o consumo (como quando você faz
uma compra no shopping em sei lá quantas vezes no cartão porque acha que
precisa ter aquele novo produto). O imóvel pode melhorar sua vida. Uma
televisão maior pode esperar até você ter condições de pagar por ela.
Quando falamos de empresas, no entanto, estamos em um campo bastante
diferente. Isso porque muitas vezes é necessário, e até desejável, que a
empresa assuma dívidas. A dívida de uma empresa será aplicada em
capital produtivo, e se o retorno sobre as atividades da empresa forem
maiores que os juros cobrados sobre a dívida, a empresa deve buscar essa
opção. Hoje, com a queda da taxa de juros a patamares historicamente
baixos e o apoio de instituições como o BNDES, é possível encontrar
soluções que vão de capital inicial para abrir uma empresa a dinheiro
para investir em atividades de inovação.
Vamos partir do princípio de que você, como empreendedor, dará uma
volta por algumas instituições financeiras e fará a escolha mais
adequada na relação entre a quantia que necessita e os juros e prazo em
que deverá pagar. A questão que resta é só uma: de onde virá o dinheiro?
Não estou dizendo de onde virá o dinheiro para sua empresa crescer e se
tornar uma multinacional daqui a vinte anos. Estou perguntando de onde
virá o dinheiro para pagar suas contas pessoais mais as despesas
iniciais da empresa quando ela começar a funcionar.
É muito diferente começar uma empresa quando já temos um ou dois
clientes garantidos, que nos permitam ao menos pagar as contas básicas, e
começar uma empresa com a ideia de que se você fizer direito, os
clientes vão aparecer.
Se você já sabe de onde vem o dinheiro, está muito mais seguro para
começar. Se quer abrir um negócio para então começar a correr atrás de
clientes ou esperar eles aparecerem, está em um terreno mais perigoso.
Eu diria, em um chute educado, pois cada negócio tem as suas
especificidades, que ao começar você deve ter algo entre 6 meses e 2
anos de contas "pagas", seja por sua reserva pessoal, seja por clientes
garantidos.
Eu sei, eu sei, é possível sim começar sem nada. A história está
cheia de pessoas que começaram na lama e terminaram no céu. Mas vocês
perguntaram minha opinião sobre o curso mais prudente. E o mais prudente
é reconhecer que por mais que você se esforce as coisas podem dar
errado.
Isso não quer dizer que as coisas vão dar errado. Pelo contrário,
torço por vocês e por todo mundo que vem me pedir ajuda sobre como
empreender ou inovar (afinal, se não fosse assim, talvez fosse melhor eu
mudar de profissão). Mas é preciso reconhecer que as coisas podem dar
errado. Ninguém quer ser aquele cara endividado pela empresa, que já
pediu dinheiro aos pais, irmãos e alguns primos, mas todos conhecemos
alguém assim.
A resposta sobre dívidas e a dúvida do Inácio, é que antes de assumir
qualquer dívida, você deve ter uma boa ideia de onde virá o dinheiro
para pagá-la.
Voltando à questão do Alex, se vale a pena trancar a faculdade a esse
ponto e iniciar imediatamente sua empresa, eu diria o seguinte: a
princípio, não faria mal programar isso para o próximo ano. Nesse
período, Alex, você pode ir programando seus passos e atividades. Pode
já prospectar locais onde se instalar, pesquisar diferentes mercados e
até tentar conhecer um ou outro cliente em potencial antes de começar.
Além disso, lhe dar uma segurança maior para começar, o dinheiro que
conseguir juntar daqui até o momento de pedir demissão pode ajudar. Além
disso, nesse prazo você terá um diploma na mão, o que pode não te
ajudar diretamente em seu negócio, mas pode vir a calhar caso você
precise voltar ao mercado um dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário