Jovem economista com estudos focados no comportamento
humano, Tim Harford fala sobre a importância do erro e vários outros temas em
entrevista ao Administradores.com
Tim Harford é dos mais originais autores de uma nova geração de
economistas que foca suas atenções no comportamento humano. Autor de "O
economista clandestino" e "A lógica da vida", lançou recentemente "Adapt: why success always starts with failure" (FSG, 2011 - ainda sem previsão de lançamento no Brasil), no qual faz uma verdadeira ode ao erro.
Sua justificativa para tal é simples: o erro é componente irrevogável
do processo de tentativa e erro, consagrada fórmula do método
científico, cujos resultados inequívocos impulsionam a ciência. Enquanto
isso, a Administração nega seus valores, apostando na claudicante e
sempre incompleta expertise de gestores bem-intencionados, porém míopes.
Nesta ilustrativa entrevista, concedida ao nosso colunista Rodolfo Araújo,
Harford explica por que é tão difícil livrar-se de velhos conceitos,
como é possível aprender através do erro e por que é tão difícil
entregar-se a ele.
Algumas das ideias testadas são contraintuitivas, mesmo depois de comprovadas. Como podemos superar nossa tendência de manter o status quo e duvidar de conceitos radicalmente novos?
Não é fácil. Só quando eu estava terminando os últimos rascunhos de
Adapt foi que percebi que cada capítulo tinha um herói – alguém que
lutou bravamente para testar algo novo. A tarefa deles não era fácil: do
engenheiro que foi executado pela polícia secreta de Stalin, ao Coronel
americano que, depois de desafiar os dogmas de Donald Rumsfeld na
Guerra do Iraque, era repetidamente preterido nas promoções. Eles foram
heróis porque é preciso um certo grau de heroísmo para desafiar ideias e
poderes arraigados.
Por que atualmente prestamos mais atenção nestas ideias – por
mais contraintuitivas que pareçam – do que fazíamos no passado? Por que
a Economia Comportamental demorou tanto tempo para aparecer e
questionar os princípios da Economia Tradicional?
A Economia Comportamental já existe há algum tempo. Aprendi as ideias
de Daniel Kahneman no meu curso de graduação em Oxford, em 1993.
Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia há quase uma década. E
Richard Thaler, autor de Nudge, escreve uma coluna sobre a disciplina
numa das mais importantes publicações de economia desde 1980, se não
estou enganado. Creio que seja uma questão de percepção popular,
acentuada mais pelo fato de a crise financeira ter arranhado a reputação
da Economia Tradicional, do que pela forma como a Economia
Comportamental procura explica-la.
| Imagem: Fran Monks/ divulgação |
Quando escolhemos uma teoria para testar, corremos o
risco de sermos enganados pela falácia da explicação única – segundo a
qual deixamos de ver outras causas para uma mesma consequência. Esta
teoria da seleção natural não pode nos confundir na identificação de uma
falsa relação de causa e efeito, baseada em simples coincidências?
Sim, é verdade: uma das partes mais difíceis do processo de tentativa
e erro reside em descobrir o que realmente está errado. Esta é uma das
razões pelas quais dediquei uma boa parte do livro em descrever o que
conta como evidência, nos campos onde as evidências são consideradas de
forma séria – como a Medicina – e a importância dos testes controlados
quando fazemos tais experiências.
Em Prevenindo colapsos financeiros, ou: Dissociando, você usa
a Teoria dos Sistemas Complexos e a analogia do queijo suíço*. Max
Bazerman escreveu um livro inteiro sobre Surpresas Previsíveis
(Predictable Surprises, Harvard Business School Press, 2008) e em Blink
(Little Brown, 2005), Malcolm Gladwell diz que ao menos seis erros são
necessários para ocorrer um acidente aéreo. Se todos os sinais da
iminência de um desastre estão diantes de nós, por que ainda somos
incapazes de preveni-los?
Em parte isso se deve à forma como as informações estão organizadas
dentro de um sistema. Eu menciono um acidente terrível numa plataforma
de petróleo, Pipper Alpha, no qual faltava uma informação crítica a
respeito de uma bomba hidráulica desmontada. Ainda não se tem certeza
sobre o motivo disso. Também cito a arquitetura da informação em Three
Mile Island (usina nuclear americana que derreteu parcialmente em 1979),
onde os engenheiros observavam 700 indicadores luminosos e mais de 100
alarmes, com a tarefa de descobrir o que estava acontecendo. Problemas
semelhantes ocorreram durante a crise financeira – enquanto o Lehman
Brothers se equilibrava à beira de um colapso, os reguladores
simplesmente não sabiam quais eram as conexões entre o banco e os outros
players, então não conseguiam enxergar o real impacto de uma
quebradeira. O que precisamos é de sistemas de informações melhores.
Uma questão parecida é "o que acontece nas organizações quando as
pessoas enxergam problemas"? Elas se manifestam ou permanecem em
silêncio? Frequentemente, mesmo em acidentes graves – financeiros ou
industriais – alguém viu o problema e ou não disse nada, ou soou o
alarme e foi ignorado ou mesmo perseguido. Precisamos melhorar neste
aspecto.
Quando você discute a questão ambiental, perguntando se a
pessoa deve usar o transporte público ou não (já que o ônibus faz o seu
trajeto independentemente de você estar nele ou não), você chega perto
do Paradoxo de Sorites**. Isto justificaria muitas ações que poderiam
resultar num desastre. Como os indivíduos – e a sociedade – devem se
comportar ao se deparar com tais dilemas?
Cedo ou tarde a pessoa perceberá o que realmente faz a diferença e
dispara a necessidade de outro ônibus precisar circular. O custo
marginal de uma pessoa é gigantesco. O custo marginal de uma segunda
pessoa é praticamente zero. A saída para o Paradoxo de Sorites é tirar a
média dos dois: digamos que o custo de uma pessoa é $100 e o custo
marginal de outras 99 é zero; então o custo marginal médio é $1. Isso é
lógico do ponto de vista econômico, mas também satisfaz o bom senso. É
um desses casos nos quais a teoria abstrata só atrapalha.
A Teoria dos Jogos diz que quando você muda as regras de um
jogo, os participantes adaptam suas estratégias para se agarrar ao
status quo. Como os reguladores podem prever melhor as consequências de
suas (boas) intenções? É um problema de incentivos mal desenhados?
Penso ser praticamente impossível prever tais consequências. É melhor
ser flexível e ficar atento, tentando se ajustar aos problemas conforme
eles forem surgindo. Exceto em sistemas com estruturas muito rígidas,
como nos casos dos bancos e usinas nucleares, como discutido
anteriormente.
No começo do livro você diz que as pessoas devem experimentar
para testar suas ideias – especialmente na medicina. Mas depois
aconselha para que reduzamos as emissões de carbono, apesar de não haver
evidências claras dos benefícios que isto pode trazer. Isto não é
contraditório?
Há muitas questões para as quais um experimento não pode fornecer uma
resposta, como Archie Cochrane, um dos herois do livro, entendeu muito
bem. Realizamos experimentos em áreas onde isto é possível e usamos
outras evidências nas outras onde não é. Eu ainda não estou 100%
convencido a respeito das evidências de que as alterações climáticas
provocadas pelo homem terão consequências severas, mas há evidências
suficientes para justificar algumas atitudes.
Sua ideia de um imposto sobre o carbono é interessante, mas
levanta algumas questões práticas: para onde iria o dinheiro? Como você
poderia impor tal carga aos países pobres? Como você fiscalizaria o
pagamento, se os gases não respeitam fronteiras políticas e alguns
países simplesmente não pagariam?
Não acho que seja um problema tão grave quanto você imagina. Os
países precisariam acordar o valor dos impostos em relação às taxas de
câmbio e ajustá-las conforme necessário. O dinheiro seria cobrado
localmente e a receita ficaria com os próprios governos. Isto não seria
um fardo para os países pobres – poderia substituir outros impostos. E
esta taxação deveria ser cobrada da mesma maneira que outros acordos
internacionais: os países aderem voluntariamente assim como fizeram na
Organização Mundial do Comércio. Não estou dizendo que seja fácil, mas
já tivemos outros consensos ainda mais complicados. O problema é que
muitos eleitores não acreditam que as mudanças climáticas sejam um
problema, de fato.
"Aceitar tentativa e erro implica em aceitar o erro". Esta
frase está em perfeita sintonia com o conceito de mindset de Carol
Dweck, segundo o qual as pessoas com uma mentalidade fixa não conseguem
lidar com fracassos, porque eles mostram suas falhas. Logo, precisamos
nos sentir confortáveis com nossas próprias fraquezas. O quão longe
estamos disso e por quê?
Sou fã do trabalho da Dra. Dweck. Precisamos entender que não devemos
encarar os fracassos de maneira tão pessoal. "Eu fracassei" não pode se
transformar em "Eu sou um fracasso" – isto não é a forma correta de se
pensar. Imagino que, naturalmente, nós lutamos contra isso, mas podemos
melhorar com a prática. Descobri isso escrevendo o livro: um erro não
parece tão trágico quando você começa a se perguntar o que aprendeu. Sei
que isso parece cliché – falar sobre erros como experiência de
aprendizado – mas é verdade. E pode ser um cliché porque é repetido
muitas vezes e repetimos tantas vezes porque é uma lição difícil de ser
aprendida.
* Compara os buracos de um queijo
suíço às falhas de um sistema. No queijo, os buracos estão distribuídos
de maneira aleatória, de forma que você não pode, por exemplo, enxergar
através dele. Mas se, de algum modo, todos eles se alinharem, você
conseguirá ver o outro lado. Um sistema complexo, por sua vez, pode
apresentar falhas individuais que, quando ocorrem separadamente, não
comprometem o conjunto. Mas quando estas falhas acontecem de forma
simultânea – como o alinhamento dos buracos – pode pôr tudo a perder.
** Onde come um, comem dois. Onde comem dois, comem três. Onde comem três, comem quatro etc
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