Competitividade caricata começa nos bancos das universidades
Alunos que querem atropelar colegas a qualquer custo com o objetivo de se destacarem podem se dar mal; competitividade é necessária, mas de uma maneira que a pessoa possa entender os próprios limites, lembra psicólogo
Amigos até que a competitividade exagerada os separe. Após seis
períodos, a encarregada de compras e recém-formada em Administração
Paola Marceli notou que alguns colegas, que estavam com ela na jornada
desde o início do curso, não hesitaram em abrir mão do companheirismo
para tentar se destacar mais em um projeto na sala de aula, que visava
estimular a competitividade. "Quando percebi que meus colegas
interpretaram isso de forma errada, fiquei frustrada, pois muitas
pessoas por quem eu sentia admiração se mostraram imaturas e
despreparadas para o mercado de trabalho", lamenta a estudante.
Uma situação semelhante aconteceu com o graduando Jefferson Campos,
que cursa o último período de Administração. Para ele, a ausência de
objetivos comuns em um ambiente onde todos querem puxar a brasa para a
própria sardinha e esquecem a organização gera um prejuízo para todos.
"Esse tipo de atitude só gera mal desempenho, refletido diretamente nos
atrasos dos trabalhos e nas resoluções de problemas em grupo, onde deve
prevalecer o bom senso e a democracia", acredita Jefferson.
Casos assim não são isolados nem restritos a determinadas regiões.
Acontecem em todos os lugares, cursos ou universidades. Para o psicólogo
Fernando Elias José, as pessoas estão na verdade desrespeitando mais
umas às outras em nome de um mercado agressivo, sem compreender os
próprios limites e sem circunscrever a competitividade aos parâmetros
éticos. "Às vezes essa característica é estimulada, e quanto mais se
compete, menos limite se tem, e isso acaba sendo prejudicial. O mercado
hoje, por mais que disponha de vários profissionais, está carente de
pessoas comprometidas", afirma o psicólogo.
Cooperatividade: por que não?
Para quem entende as organizações como organismos vivos, aqui vai uma
dica: a solidariedade é uma das principais características que diferem
os seres humanos dos demais animais. A conclusão é do livro-estudo
intitulado Why we cooperate (Por que cooperamos?, sem versão em
português), conduzido pelo biólogo Michael Tomasello, diretor do
Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na
Alemanha. Ao comparar o desenvolvimento de bebês humanos e jovens
chimpanzés, foi constatado que tarefas simples – como apanhar um objeto
que outra pessoa deixou cair no chão –, realizadas sem nenhum estímulo,
foram cumpridas com excelência pelos nossos congêneres. Com o tempo,
esse comportamento pode se sedimentar como norma social.
Porém diversas situações, até mesmo relacionadas à carreira ou
formação acadêmica, acabam conduzindo as pessoas a serem mais seletivas
em suas ajudas, a famosa perda da ingenuidade infantil. E isso nos leva a
sermos mais competitivos em nome da nossa própria sobrevivência – ou
induz as pessoas a utilizarem esse argumento para justificar o vale-tudo
em espaços competitivos, incluindo-se aí as salas de aula. "A gente não
tem como dizer que a competição não pode fazer parte da vida, mas às
vezes a competitividade passa dos limites quando as pessoas tendem a
passar por cima das outras, extrapolando sua relação com as demais",
afirma Fernando Elias.
O estudante Eduardo Augusto Hamilton defende outras formas de
estímulo ao desenvolvimento acadêmico e profissional que não sejam
apenas baseadas em parâmetros competitivos. "Não acho que a
competitividade em si seja uma boa dentro da sala de aula, pois muitas
pessoas não sabem lidar com isso e deixam que as relações interpessoais
acabem sendo prejudicadas. Creio que haja outras formas mais
estimulantes para que as pessoas busquem 'ser os melhores'. Ao meu ver, a
universidade é um lugar para que conhecimentos e experiências sejam
trocados", explica.
Já a professora de Administração Ayesha Schwartez lembra que a maior
competição nem sempre é contra os outros, mas contra si mesmos. Apesar
de se dizer adepta da competitividade e do seu estímulo em sala de aula,
ela afirma que esta é apenas uma das ferramentas de apoio pedagógico.
"A visão do ensino superior hoje continua muito secundarista, e
precisamos agir para que os alunos sejam mais produtivos", destaca.
Meu colega quer me derrubar. E agora?
A melhor maneira de lidar com colegas de classe que tentam se
sobressair a todo custo é tentar equilibrar essa balança. Fernando Elias
lembra que "em primeiro é o outro que está em excesso, por isso, é
preciso equilibrar, é preciso combater isso. Lute contra, essa é a
grande dica. Não adianta ficar atraindo desvantagens para si, achando
que é menos capaz ou que não consegue". Claro, sempre tendo em mente que
você deve agir como gostaria que os outros agissem com você, conforme
os preceitos básicos da ética aristotélica.
Pensando bem, por que utilizar a experiência universitária como campo
de disputa? Não é necessário ser especialista para saber que a vivência
acadêmica, dentro e fora da sala de aula, é um momento único na vida,
não só pelo contato com o conhecimento científico e profissional, mas
pelas experiências diversas adquiridas junto aos colegas e professores.
Bem que isso poderia ser uma fonte valiosa de contatos para o futuro
profissional, um networking aprofundado e baseado em experiências
pessoais que não pode ser substituído. Então para que estragar tudo isso
deliberadamente em nome de um pragmatismo de utilidade duvidosa?
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