Eles foram para o teatro aprender
a encantar platéias em apresentações e reuniões. Acabaram se encantando com a
profissão de ator e assumindo um novo papel
Rafael Steinhauser, presidente da
Qualcomm para a América Latina, em cena na peça "Nome do Pai"
(Foto:
Divulgação)
Dizem os executivos, não há palco
ou espectador que exija melhor atuação do que a rotina nas empresas. Por isso
mesmo, um número cada vez maior de executivos tem procurado cursos de teatro
como reforço na formação. Os benefícios, eles dizem, são muitos. Improviso,
capacidade de comunicação, impostação de voz, trabalho em equipe, foco. Para
muitos, no entanto, o que parecia brincadeira, acabou virando uma segunda
ocupação.
“Eles têm percebido que o que
mobiliza uma platéia é o mesmo que mobiliza uma equipe: o quanto que há de
encantamento e paixão na fala. Ou seja, o que comunica de fato é o sentimento”,
diz Nany di Lima, atriz profissional e professora do curso Teatro para
Executivos da Faap.
Nany fala com a propriedade de quem
tem, ela mesma, passagem por grandes empresas. Formada em psicologia, ocupou
por oito anos o posto de gerente de recrutamento de uma multinacional belga com
atuação no Brasil. A especialização em psicodrama acabou a levando ao teatro
profissional, até que um dia ela desistiu de levar as duas carreiras ao mesmo
tempo. Na época, o teatro ganhou a disputa. Nany fez novelas, peças e filmes
como “Eu Te Darei o Céu”, que lhe rendeu um Kikito de melhor atriz, em Gramado.
O laço com o mundo corporativo,
no entanto, nunca foi totalmente desfeito. Atualmente, ela alia a carreira como
atriz e diretora artística com a de coaching para executivos e professora. No
curso da Faap, recebe de executivos de finanças, de TI, recursos humanos e
consultores até médicos. Em comum, a mesma demanda: melhorar a comunicação
(corporal ou discursiva) para encantar a equipe de trabalho, clientes e se
destacar.
Mais que uma necessidade de
trabalho, o que levou Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm para a América
Latina, às aulas foi o gosto antigo como espectador pelo teatro. Há nove anos,
o executivo resolveu tirar um ano sabático e fez um curso amador por quase um
ano. Tomou gosto pela coisa, fez o Célia Helena e, daí por diante – em meio à
carreira como presidente de empresas como a Cisco, Acision e Nortel –, foram
sete peças.
A última peça, “Nome do Pai”,
ficou cinco meses em cartaz no teatro Ágora, foi encenada em festivais de
países como Espanha e México, em setembro vai para a Rússia e ganhou um prêmio
do governo do estado de São Paulo. Com o dinheiro da premiação, a peça será
montada em cidades do interior do estado, nos meses de abril a junho. Não
contente, Steinhauser vai participar da criação de um grupo internacional de
teatro para fomentar atividades de formação, produção e intercâmbio.
Claudio Govea, diretor de núcleo
da Editora Trip, que ficou dois meses em cartaz com a peça “Fuck You Babe”
(Foto: Edson Kumasaka)
O fôlego do executivo para
conciliar as duas carreiras é de dar inveja. Em média, são 12 horas de trabalho
por dia, mais 2 a 3 horas (de segunda a domingo) dedicadas ao teatro quando
está em cartaz. Quando não está atuando, ele gasta no mínimo uma hora diária
com treinos. “A vida executiva e o teatro, para mim, são complementares. O
trabalho como executivo é o lado racional. O teatro é o físico, o emocional”,
afirma Steinhauser. E os dois, pelo jeito, caminham juntos na vida do
executivo. “Em uma reunião, como em uma peça, você precisa conseguir a atenção
de um grupo de pessoas por mais de uma hora.”
Foi esse o motivo que levou
Claudio Govea, hoje diretor de núcleo da editora Trip, a estudar teatro. Como
diretor de agências de publicidade, à época, Govea sempre fez apresentações em
grandes empresas. “Senti que precisava desenvolver melhor o discurso.” Em 2010,
ele se inscreveu no curso da Faap. Aprendeu técnicas de palco, olhar, presença
corporal e fala. O feedback da diretora no curso foi tão positivo, que Govea se
inscreveu para o módulo de teatro para adultos. De lá, começou a atuar
profissionalmente.
Govea ficou dois meses em cartaz
com a peça “Fuck You Babe”, de Mário Bortolotto. Neste ano, veio o convite para
outra peça que deve estrear em junho. “Hoje, quando estou em uma reunião, sinto
que tenho um controle maior do que estou falando”, diz. Se pretende conciliar
as duas carreiras? Govea não tem dúvidas. “Aos 43 anos, é como se abrisse uma
nova oportunidade, uma nova perspectiva de vida.”
A mesma possibilidade de fazer
algo novo animou Rolf Wiegel, então presidente do Deutsche Bank no Brasil, a
fazer teatro. “Era algo que sempre quis. Meus colegas de trabalho disseram que
não precisa porque eu já atuava há 40 anos no banco”, brinca Wiegel.
Há cinco anos, o alemão que vive
no país há 19 fez o curso para executivos pela primeira vez. Encenou uma peça,
aposentou-se do banco e assumiu a presidência do Club Transatlântico (que reúne
empresários alemães no Brasil), mas não largou o teatro. Para o trabalho, levou
o espírito de equipe, tão necessário em cena. “No palco, cada um tem uma
função, não importa se tenha muitas ou poucas falas. Todos têm sua
importância.”
Apesar de não ter seguido
carreira profissional, como Govea e Steinhauser, Wiegel faz questão de todo ano
se inscrever em um novo módulo. No palco, aprendeu a lidar com as emoções.
“Sabe como é alemão, fechado. Aprendi a disciplinar as emoções, a não agir de
forma abrupta e sem pensar. E como se o teatro tivesse entrado no meu
subconsciente. Hoje ele me ajuda tanto no trabalho, quanto na vida pessoal.”
Essa capacidade de influenciar
trabalho e vida pessoal que parece ser o motivo que tem levado executivos a
conciliarem as duas carreiras. “O teatro é um ganho de referência, de
compreensão de si e do outro. Ninguém se percebe sem sentir na pele o que o
outro vive”, filosofa a atriz e coaching Nany.
O executivo-ator Rolf Wiegel,
ex-presidente do Deutsche Bank no Brasil, hoje à frente do Club Transatlântico
(Foto: Divulgação)
Do palco para as reuniões
Os cursos de teatro ajudam a
desenvolver várias competências pra lá de úteis na rotina corporativa. Confira
abaixo os principais aprendizados apontados pelos executivos-atores ouvidos
nesta reportagem.
Criatividade: Mesmo um texto
repetido à exaustão tem que ser recriado, trazer elementos novos para
transmitir a sensação do novo.
Foco: Conseguir conciliar
discurso, linguagem corporal, impostação de voz etc exige que o ator esteja
muito focado. Qualquer semelhança com a realidade de suas apresentações e
reuniões, não é mera coincidência.
Comunicação: Um executivo deve
comunicar de forma objetiva e precisa. Os exercícios que treinam a linguagem
corporal, impostação e projeção da voz acabam desenvolvendo essa qualidade.
Controle das emoções: Ao entrar
em contato com as emoções, o ator ganha maior consciência do quê está sentindo.
Esse treino garante um maior controle na hora de reagir a uma situação de
stress, por exemplo.
Flexibilidade: O improviso
treinado à exaustão no teatro confere jogo de cintura no dia a dia das
empresas.
Consciência: Ao interpretar um
personagem, o ator assume uma visão diferente da sua, coloca-se no lugar do outro.
É isso que lhe dá uma maior consciência de si mesmo, do outro e do todo. Uma
arma e tanto na hora de negociar ou barganhar na empresa.
Interação: O que encanta uma
platéia, seja no teatro ou no ambiente de trabalho, é o mesmo elemento, a
paixão. Um bom ator, assim como um bom executivo consegue arrebatar multidões
quando aprende a discursar com paixão.



Nenhum comentário:
Postar um comentário