Em 2011, quase 11 milhões de pessoas se inscreveram
para concursos em todo país. Gente disposta a tentar uma das 650 mil
vagas oferecidas no serviço público federal, estadual e municipal.
Todos os anos, no Brasil inteiro, milhões de pessoas tentam se
transformar em funcionários públicos. E, pra isso, se inscrevem em
concursos muito disputados - que acabam alimentando um mercado paralelo,
de cursos preparatórios. São os chamados concurseiros.
Esta multidão de cidadãos em busca de vagas valorizadíssimas é o tema
de uma série especial de reportagens que o Jornal Nacional exibe a
partir desta segunda-feira (12).
Quase não deu tempo. “Foram cinco quilômetros de corrida, 25 minutos,
portão quase fechando. É a vontade de fazer concurso e passar logo”, diz
o estagiário Vitor Soares.
Emerson também teve que enfrentar uma maratona. De outra natureza. De dia, auxiliar administrativo - de noite, motoboy.
“Entre um intervalo e outro, estudando de madrugada, porque eu chego em casa uma hora, ia dormir às 3h, por aí”, conta Emerson Denes.
“Entre um intervalo e outro, estudando de madrugada, porque eu chego em casa uma hora, ia dormir às 3h, por aí”, conta Emerson Denes.
Ele tenta uma vaga de técnico de contabilidade júnior. Salário inicial de R$ 2, 615,00.
A concorrência: 173,6 mil para 590 vagas. Viviane Póvoa, 22 anos, já
fez dez concursos. “ Essa insistência é por causa da estabilidade”,
explica.
Quase 11 milhões de pessoas se inscreveram para concursos em 2011 em
todo o país. Gente disposta a tentar uma das 650 mil vagas oferecidas no
serviço público federal, estadual e municipal. Outros 200 concursos
estão previstos para este ano, com mais de 116 mil novas vagas.
“A meta é sempre fazer mais para ficar mais preparado. Independente de
passar ou não, é sempre seguindo, que um dia eu vou chegar lá”, garante o
candidato Jonilson.
Portão fechado. A sorte está lançada. Aliás... Sorte? O que é mesmo
necessário para ser aprovado num concurso? Muito mais que isso.
“Quem passa em concurso público não é quem tira 10 numa matéria e nota
zero em outra. Passa quem é nota seis em tudo. Então se você consegue
definir o caminho durante a faculdade, você começa a se preparar para
aprovação no concurso público”, explica o promotor e professor Thiago
Godoy.
Ele é carioca e mora no Recife. É promotor de Justiça e um dos 100
professores que trabalham no cursinho criado em Pernambuco por Renato
Saraiva.
Os concursos contam cada vez com mais frequência com aliados antes
usados mesmo por nós, que somos jornalistas. Estúdio, luz, câmera, ação:
a aula vai começar.
Renato saraiva abriu mão dos cursos presenciais e, há três anos,
comprou a primeira câmera. Tem estúdios em cinco estados. Oferece 150
cursos à distância nas mais diversas áreas. E chegou aos 35 mil alunos.
Eu penso que essa aula on line é tanto para os alunos do interior quanto para os alunos da capital. Os alunos do interior porque eles conseguem participar da igualdade de condições “analisa Renato saraiva, procurador do Trabalho e coordenador do curso.
Os cursinhos on line não esvaziaram as salas de aula. Uma turma, de 150
alunos, se prepara para conseguir vagas nos tribunais, mas ninguém sabe
quando os concursos vão acontecer.
“Como a gente sabe a dificuldade aqui no Brasil na profissão de
bailarina, eu decidi investir também no concurso público”, diz a
bailarina Brenda Schettini.
O professor se impressiona. Os jovens não estão interessados em seguir a
carreira que escolheram na hora de entrar na faculdade.
“A gente pensa que passar em concurso público, sempre eu digo em sala
de aula, vai resolver todos os problemas, mas isso não é verdade. Passar
em um concurso público é começar uma nova vida”, diz Oscar vilaça.
Em Boa Vista, Roraima, o mineiro Adriano começou vida nova. Ele dá
expediente na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego. Menos de
10 minutos no trânsito. Adriano é formado em filosofia. Todas as dez
vagas para auditor fiscal foram ocupadas por gente de fora.
“Uma carreira muito bonita, que ela tem um cunho social. Você vê
mudança no seu trabalho, mudança na vida dos trabalhadores”, avalia
Adriano Furtado.
Os sete novos auditores se encontraram pela primeira vez no dia em que
tomaram posse. Fizeram as contas e descobriram que, juntos, enfrentaram
44 concursos.
“O fato de ser bem remunerado, de adquirir uma estabilidade financeira e
uma estabilidade de vida mesmo”, diz Eferson Gomes auditor fiscal do
Trabalho.
Os concursos públicos levam as pessoas a saírem da sua zona de
conforto. O que parece sacrifício para alguns representa melhoria na
qualidade de vida para quem apostava, a princípio, exclusivamente, na
estabilidade financeira.
Miguel completou seis anos. Fernanda, dois. As crianças de Brasília
estão cheios de amigos em Boa Vista. O pai, Gilberto, dentista, tinha
consultório particular e dava aulas em uma faculdade. Decidiu fazer um
concurso público.
“Aí eu falei meio de supetão: se você passar, a gente vai. Aí ele passou. E aí a gente veio”, conta Denise Rasia.
Foi o passaporte para exercer a atividade com que sonhava: a de
odontolegista num Instituto Médico-Legal. Voltar para Brasília está fora
de cogitação.
“A gente está muito bem. Nós estamos com nossos dois filhos. A gente
tem muita felicidade. É a qualidade de vida”, avalia Gilberto de
carvalho.
Mas a distância vira adversária com frequência. Muito mais do que
alguns podem imaginar. As dificuldades do concurseiro são o assunto
desta terça-feira.


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